Diocese
Cruz Alta

 

Agenda do Mês

Salmo do dia

" O Senhor ama seu povo de verdade".

(Sl 149)


Perguntas e Respostas sobre a Morte

 

  1. Por que o humano evita o tema da morte e nos cercamos de tantas outras ‘ocupações’ para não deixar emergir uma das questões mais centrais da vida?
- A morte é uma realidade que situa o ser humano no profundo e misterioso enigma da vida, nos diz o Concílio Vaticano II (GS 18). A morte é um acontecimento a que nenhum ser humano pode-se privar outorgando o direito de não dela querer participar; ela é um decreto inexorável que afirma: todos vão morrer. É o fim certo, desconhecido e ao mesmo tempo exato para todos. Marciano Vidal (Moral de atitudes. Ética da pessoa, vol. 2, p. 229) diz que “a certeza do morrer nos entristece porque manifesta o caráter de impossibilidade. A tristeza que origina a certeza do morrer é uma tristeza existencial, manifestada na experiência do limite, da fragilidade, da perda e da solidão”. A manifestação de emoção diante da dor, do sofrimento e da morte é vista como fraqueza. Uma dor demasiado visível é sinal de má educação. A morte tornou-se tabu. É a falta de sensibilidade diante de uma situação em que se necessita de compreensão e amparo. Morrer não é instantâneo. É um processo. A morte mostra o quanto o ser humano é frágil e pequeno; revela o limite da pessoa humana, o limite de seus atos, sua natureza, suas vontades e sua inteligência. Para a inteligibilidade humana a morte é a maior inimiga e a maior experiência de esvaziar-se de si mesmo. A razão não admite morrer. A maior luta do ser humano é esta: a consciência não admite que vá morrer. A luta é pela aceitação de seu fim. É a morte da consciência; ela precisa aceitar seu fim. Numa sociedade onde se destacam as conquistas, os heróis, o individualismo e o progresso desenfreado, as limitações precisam ser negadas. A morte é encarada como limitação. Daí deduz-se que ela não pode ter lugar. Seria por isso simplesmente que se procura, quase incansavelmente, uma “solução” para a morte?
  1. A noção de transcendência existencial poderia constituir mero recurso para ajudar a suportar a terrível consciência da finitude material de cada um? Ou seria decorrência natural da racionalidade humana?
- Um discurso puramente racional não terá disposição de dar respostas adequadas. A razão, por si só, não alcança resolver a ambigüidade. A idéia da transcendência é que fica, pois ela aparece como alternativa à idéia da morte. Não desaparecerei inteiramente, fica a esperança de que o núcleo autêntico do ser humano não se extingue para sempre com a morte do seu sujeito; fica a confiança de que o ser prevalece sobre o nada. O desejo de transcender o fim da existência não pode ser contido. A melhor maneira de propagar uma Religião (ela surgiu para responder às questões fundamentais do ser humano: quem sou eu? por que existo? de onde vim? para onde vou?) é tentar destruí-la. A melhor maneira de incendiar o desejo do homem de procurar por Deus e transcender o caos da morte é tentar destruir este desejo.
3. Teria o homem uma necessidade inata de procurar por Deus e produzir sistemas de crenças? Por quê?
- Para os cristãos, a morte também é irrefutável, tira o ser e a palavra do homem; é muda e ficamos sem resposta diante dela. Se há resposta, esta deve vir de Deus. Ao dizer ressurreição (essa é a fé/crença dos cristãos), a Sagrada Escritura fala de uma salvação do homem inteiro: a fé cristã crê que há salvação para o homem e para a história. A fé na ressurreição pode e deve ser testemunhada como esperança pessoal numa vitória sobre a morte. O homem não morre para ficar morto, mas para ressuscitar; ou como diz Leonardo Boff, “o cristão não nasce para morrer, mas morre para ressuscitar”. Vida em plenitude, surgida do amor, mais forte do que a morte. E permanece a convicção de que “a morte é (apenas) a passagem do homem para a eternidade” (Boff, Vida para além da morte, 1973, p. 55).
4. Como o cristão deve(ria) lidar com o drama existencial do envelhecimento humano?
- Há dois dramas existenciais que atingem todo ser humano: o envelhecimento e o fim da existência. A vida só aceita o fim de si mesma se não estiver próxima desse fim. Se estiver próxima desse fim, ela o rejeita automaticamente ou, então, aceita-o se se convencer da possibilidade de superá-lo. Por isso, a escola da existência é a escola da vida, dos eventos psicológicos e sociais aos acontecimentos espirituais e sobrenaturais; na escola da existência escrevemos nossas histórias particulares. Na escola da existência, a velhice não significa sempre maturidade nem esclerose; os títulos e diplomas não significam, normalmente, sabedoria; o sucesso profissional não significa sucesso no prazer de viver; a fé nem sempre significa abandono e confiança.
5. Por que a inteligência humana não consegue compreender o fim da vida?
- A morte não é penetrável, nem inteligível pela razão humana; diante dela ficamos mudos ou perguntamos: por que? por que agora? ou por que só agora? Diz Libânio (A vida e a morte: desafios e mistérios, 1986, p. 64), “é a face misteriosa da morte que causa angústia. Mas caracteriza-se como misteriosa porque fundamenta uma experiência fundante da existência humana e por isso desafia a inteligência humana para mergulhar nela”. A morte é o mistério inesgotável da vida; e por isso dá o que pensar! Trata-se de um sentido último, do todo e do ser humano. A morte não é a última palavra, mas sim a vida, sua conservação e sua perpetuidade. Por isso, a Religião (ou Religiões) tem relação com o sentido e o não-sentido da vida, com a liberdade e a escravidão das pessoas, com os eternos problemas do amor e do sofrimento, da culpa e da reconciliação, da vida e da morte.
Prof. Pe. Pedro Alberto Kunrath
Pucrs e Pároco do Santuário Nossa Senhora da Paz – Porto Alegre.