REFLEXÕES PARA UM DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

REFLEXÕES PARA UM DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO
Ludwig Feuerbach perguntou-se: o que nos distingue dos animais? E respondeu: o que nos distingue dos animais é a nossa crença no sobrenatural, porque somos seres religiosos. O ser humano é um ser religioso.
Feuerbach era ateu. Mas o ateísmo também é uma religião. É a crença de que a razão e a ciência podem resolver todos os problemas humanos.
Há quem se considere agnóstico (não pensa em Deus), mas crê pelo menos na verdade do que lhe dizem no dia-a-dia .
Vivemos de crenças. Que garantia temos de que o sol nascerá amanhã? Que o ônibus que esperamos virá? Que o médico não nos mentiu? Que o motorista não vai nos atropelar? Que não me mentiram sobre a data de nosso nascimento? Seria absurdo duvidar de tudo, nossa existência seria um inferno.
Vivemos um tempo de incertezas. Mesmo a ciência, que dizia ser a portadora absoluta da verdade, é acusada de viver de crenças. Recentemente a teoria do indeterminismo de Heisenberg (a impossibilidade da exatidão de qualquer teste científico), a teoria do caos, a física quântica, a teoria da relatividade, a falseabilidade de Karl Popper (a verdade científica dura até ser desmentida por outra verdade) abalaram sobremaneira o status da chamada “garantia científica”.
Não obstante, vivemos na crise dos fundamentos. A crise dos fundamentos diz que nenhuma afirmação se sustenta nos seus princípios últimos, já que todo fundamento se autopõem. Isto é, há um princípio sem princípio em toda teoria, que deve ser aceito sem ser questionado. Por exemplo: a afirmação de que toda a verdade deve ser provada pela experiência não é validada na sua formulação, pois esta formulação não pode ser provada.
O ser humano é religioso porque tudo lhe aponta para um mistério. O mistério está em todas as coisas.
No ser humano há uma sede de infinito, pois, embora sendo criatura mortal, nele mora o divino, que lhe aponta para a eternidade, para o infinito. Ser habitado pelo infinito faz o ser humano, que é mortal, desejar a imortalidade; o ser humano que é limitado, desejar a perfeição. O desejo que não é saciado por nada que seja deste mundo, pois tudo nesse mundo é passageiro, quer se saciar com o que é perene, eterno.
O ser humano é religioso porque o divino, que mora nele, faz dar-se conta de sua posição dentro do cosmos: uma posição de criatura frágil e mortal. Vê que não foi o responsável pela sua existência, nem tem nas mãos o que vai ser depois da morte.
Deus, que na nossa crença se revelou em uma única religião (como o Cristo, que nos ensinou e nos deixou todas as condições para a nossa salvação), deixou sua marca em todos os seres humanos, que sentem o desejo de procurá-lo.
O diálogo inter-religioso nunca vai conseguir definir quem é Deus, e em que religião ele se encontra. Não é essa a sua função. É no reconhecimento de que Deus tem um plano para todos os seres humanos, e que os seus desígnios de amor são para todas as criaturas, que é possível o diálogo. O diálogo só é possível quando o que anunciamos é a nossa crença, e não o “nosso Deus”. Deus não é propriedade de nenhuma religião. Nós pertencemos a Ele, e não é Ele que pertence a nós.
Eliseu Oliveira
1º Ano de Teologia – FAPAS/ Santa Maria