SEDE E FOME DE DEUS

SEDE E FOME DE DEUS
“A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei e me verei perante a face de Deus?” (Salmo 42.2)
O ser humano foi marcado pelo criador. Foi programado para a ordem, a harmonia e a paz. Dentro do coração humano palpita um anseio por uma felicidade plena, um gozo eterno e ilimitado. Os místicos chamam isso de “sede e fome de Deus”.
Os salmos estão recheados de exclamações da criatura que quer unir-se ao criador. Diz o salmista: “Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando voltarei a ver a face de Deus?”(Sl 42,3). Santo Agostinho, no livro “As confissões”, um livro de memórias onde conta o seu processo de conversão, inicia elevando a Deus uma oração belíssima, e em um momento da oração exclama: “me fizestes para ti, Senhor. E meu coração está inquieto enquanto não repousar em ti.”
O encontro com esse Tu Divino, todo-poderosos e misericordioso, é um encontro de festa e de fartura. Deus, na sua grandeza infinita, recebe a nossa fragilidade pecadora, e na pura gratuidade nos oferta a plenitude que ansiamos. O salmo 23 apresenta como a imagem do Bom Pastor que conduz as sua ovelhas. O Bom Pastor prepara um banquete (Sl 23,5), e serve uma taça que transborda (Sl 23,5). Essa taça é a plenitude: de vida, de felicidade, de justiça, de sentido. O salmista antevê o que nos espera na casa do Senhor: “Sim, felicidade e amor me seguirão todos os dias da minha vida; minha morada é a casa do Senhor por dias sem fim.” (Sl 23,6).
A imagem religiosa também é uma imagem psico-antropológica. Carl Gustav Jung, na sua psicologia analítica, afirma que no ser humano está como que gravado uma imagem primitiva, genealógica, no inconsciente coletivo da humanidade, imagem de uma espécie de “paraíso perdido”. Esta imagem impulsiona a raça humana para a ordem em meio ao caos, à paz em meio à guerra, à justiça em meio à injustiça. É um anseio por segurança, harmonia, tranqüilidade, felicidade. Como se fosse uma saudade de um lugar onde tudo isso fosse possível. Essa imagem de um “paraíso” é fonte de utopias, ideologias. Cria religiões e produz revoluções. É uma voz interior que chama o ser humano para uma felicidade e uma paz que ele não consegue encontrar, apesar de todos os bens materiais e do conhecimento científico já fabricado.
Pelos olhos da religião, essa estranha e inexplicável tendência para a ordem, para o bem, para a verdade, para a felicidade apesar e apesar da desordem, da maldade, da mentira e da tristeza, é obra de Deus. O criador deixou uma marca na criatura finita e imperfeita: é a aspiração à infinitude e a perfeição. Dentro de nós está uma voz que nos desinstala de qualquer situação concretizada, de todo bem material adquirido, de todo poder conquistado, de todo o prazer que sempre termina. Como um desejo que não se sacia, como um mal estar que nos acompanha e nos faz sentir estrangeiros em nossa própria pátria.
O chamado que nos acompanha enquanto humanidade é um chamado para Deus e para a ordem, a justiça e a paz temporal, que se realiza plenamente no Reino Definitivo. Essa harmonia que antecede o sentido mesmo de nossa existência (ser um com Deus) só se realiza diante da realização do mandamento do amor ao próximo, e um amor a toda a criação. É o amor que funda o novo céu e a nova terra. É o amor de cristo que possibilita a nova sociedade, e é o amor entre os seres humanos que a concretiza.
O viés do serviço a Deus e aos irmãos responde à aspiração humana pela felicidade e pelo sentido e realiza a vontade de Jesus Cristo, que é a construção do Reino de Deus: “Buscai, em primeiro lugar, seu Reino e sua justiça.” (Mt 6,33). Outro modo é o individualismo, o consumismo, a drogadição, a acumulação desnecessária que pode gerar alguns momentos de prazer e felicidade, sem que sacia a sede humana de eternidade e de sentido. Mais ainda, esbarra sem resposta diante das perguntas existenciais que nos acompanha: qual a razão de minha existência neste mundo? Qual a minha contribuição neste mundo? O que fica para a humanidade, depois que eu não mais existir?
Eliseu de Oliveira
Estudante do 1º de Teologia - FAPAS/ Santa Maria