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Cruz Alta

 

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" Da Vossa glória estão cheios o céu e a terra".

(Sl 148)


TODO O SER HUMANO É BOM: uma análise transdisciplinar

TODO O SER HUMANO É BOM: uma análise transdisciplinar

Quando nos deparamos com os noticiários, e lá encontramos uma série de absurdos cometidos por seres humanos contra seres humanos, concluímos como Thomas Hobbes: “o homem é o lobo do homem!”.
Freud, no livro “o mal estar na civilização” (1929), explica a cultura e a sociedade como fruto de um exercício de repressão. Segundo Freud, o ser humano, para viver em sociedade, precisa reprimir o seu impulso agressivo, seu impulso de morte. É a luta entre o princípio de prazer (impulsos agressivos que tencionam em direção a realização do prazer) e o princípio de realidade (as leis morais, os contextos reais que limitam a busca do prazer). Para Freud, a repressão dos instintos é fundamental para o pacto-social entre as pessoas, para a vivência e a con-vivência em sociedade.
Se o ser humano, na sua essência, é naturalmente mal, não é possível sonhar com uma sociedade diferente da atual. Se aceitarmos que o ser humano é naturalmente mal, e tão somente mal, competitivo, excludente, individualista, ciumento, invejoso... aceitamos o modelo capitalista e neoliberal como expressão institucional da natureza humana. Com Francis Fukuyama dizemos que a história chegou no seu estágio final, tempo de “morte de todas as utopias”.
Por outro lado, se afirmarmos que o ser humano é tão somente bom, como explicar tudo o que acontece atualmente a nossa volta: roubo, drogas, guerras, todos os tipos de violências, inveja, rancor, idolatria ao dinheiro?
O pensador Edgar Morin chegou a um meio termo. Diz que o ser humano é sábio (sapiens) e demente (demens). Isto é, capaz de fazer o bem aos semelhantes, fabricar remédios que salvam milhões, construir tecnologia que facilitam a vida humana, mas pode fabricar bombas atômicas e usá-las; é capaz de sacrificar outros seres humanos em câmara de gás e fazer isso sem considerar que está fazendo um mal (a sua dimensão demente).
A psicologia humanista (contra Freud, que afirma a maldade, e contra Skinner, que não encontra maldade nem bondade nenhuma no ser humano, somente no meio onde ele vive) afirma que o ser humano pode fazer o bem quanto pode fazer o mal, sem que isso seja somente efeito de um meio. O ser humano, dentro de si, carrega o seu lado bom e o seu lado mal. Mas o lado bom é mais forte, e é o aspecto que caracteriza uma pessoa sã, integrada, auto-atualizada. É assim também que a religião cristã entende o ser humano: chamado para Deus e para o bem, mas manchado pelo pecado original (que lhe possibilita pensar e fazer o mal).
A pergunta “quem é o ser humano?” não necessariamente responde a questão: “por que o ser humano é assim?”. Desconfiando da premissa ontológica, empiricamente concluímos: nem sempre o agir segue o ser. Nem sempre o ser humano, chamado e criado para o bem, assim o faz.
Muitos se contentam em dizer que o mundo está assim, um caos de violência, corrupção, individualismo, porque o ser humano é naturalmente violento, corrupto e individualista. Contudo, nos deparamos com figuras como Madre Tereza de Calcutá, Gandhi, Luther King, que pautaram sua vida no amor aos seus semelhantes, na compaixão, no cuidado. E agora, como explicar? Dizer que eles não são humanos?
Com Marx e outros, contextualizamos os seres humanos. Dizemos que eles também são frutos de um meio onde vivem, de uma sociedade e dos valores e desvalores que esta sociedade carrega. Freud, por outro lado, nos lembra que nossa natureza também tende para o mal, e o mal ocorre quando há um deixar-se levar pelos nossos desejos pessoais (princípio de prazer) em detrimento do conjunto social, da vontade alheia (princípio de realidade).
Pelos olhos da fé, iluminada pela razão (teologia), entendemos realmente quem é o ser humano e qual o sentido da vida e da história. Descobrimos que os ser humano é criatura de Deus (portanto é bom), porém, manchado pelo pecado original (assim, capaz de cometer o mal). Santo Agostinho vê que mal não está na obra de Deus, mas nasce do coração do homem, quando este, pela própria iniciativa, se afasta da vontade de Deus para com o ser humano e para com toda a criação.
Como o evento da encarnação e da páscoa de Cristo, já não somos mais escravos do pecado. Não somos, porém, totalmente incapazes de cometer pecados. Mas o pecado já não é maior do que nossa possibilidade de conversão e da ação misericordiosa de Deus. Deus, que é bom, nos quer santos e irrepreensíveis, e nos dá todas as condições para a nossa salvação, bastando nossa adesão a ele e a seu projeto. A conversão consiste na vida de amor para com Deus e para com os irmãos, caminhando para a eternidade enquanto constrói e já vive antecipadamente o Reino de Deus aqui.
Todo o ser humano é bom porque é criatura de Deus, e por meio de Jesus Cristo, tem condições de se tornar filho. É nessa perspectiva de ser humano que afirmamos que a violência, a corrupção, o individualismo, a drogadição, a inveja, não são a ordem natural do mundo, mas sua subversão: não foi para isso que Deus nos fez. Deus nos fez para o amor, para a caridade, para a comunhão e para o louvor.
Diz Santo Agostinho: “nos fizestes para vós, e meu coração está inquieto enquanto não repousar em vós”.

Eliseu Oliveira - 1º Teologia/ Santa Maria